Yves
de La Taille: "Nossos alunos precisam de princípios, e não só
de regras"
Para
o psicólogo, a escola deve investir em formação ética no convívio
entre alunos, professores e funcionários para vencer a indisciplina
Agressões,
humilhação, ausência de limites. Nove em cada dez educadores
reclamam que as salas de aula estão cada vez mais incivilizadas e
que é preciso dar um basta. Para resolver o problema, nove entre dez
escolas recorrem a regras de controle e punição. "É legitimo,
mas é pouco. É preciso criar uma lei para coibir algo que o bom
senso por si só deveria banir?", questiona Yves de La Taille,
professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.
Especialista em Psicologia Moral (a ciência que investiga os
processos mentais que levam alguém a obedecer ou não a regras e
valores), ele defende que a escola ajude a formar pessoas capazes de
resolver conflitos coletivamente, pautadas pelo respeito a princípios
discutidos pela comunidade. O caminho para chegar lá passa pela
formação ética - não necessariamente como conteúdo didático,
mas principalmente no convívio diário dentro da instituição.
Co-autor
dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) sobre Temas
Transversais, La Taille aponta que a tentativa de abordar assuntos
como ética, orientação sexual e meio ambiente de maneira
coordenada em várias disciplinas não funcionou no Brasil. "É
uma proposta sofisticada que não se transformou em realidade."
Nesta entrevista concedida a NOVA ESCOLA, o ganhador do Prêmio
Jabuti de 2007 na categoria Educação, Psicologia e Psicanálise,
com o livro Moral e Ética, Dimensões Educacionais e Afetivas,
indica caminhos para trabalhar esses temas no ambiente
escolar.Políticos,
educadores e a sociedade cada vez mais pedem ética para solucionar
problemas sociais. A que se atribui essa demanda?
YVES
DE LA TAILLE Existe
uma situação de medo, uma percepção de que as relações humanas
estão cada vez mais desrespeitosas. Mas creio que a demanda social
não seja realmente por ética. O clamor, na verdade, é por
normatização. Tanto que hoje temos uma espécie de hiperinflação
de leis. Um exemplo é o projeto aprovado pela Assembleia Legislativa
de São Paulo proibindo o uso de celulares dentro das classes. É
claro que atender ao aparelho durante a aula atrapalha, mas como a
escola enfrenta esse problema? Criando uma regra de controle em vez
de discutir os valores envolvidos nessa situação - o respeito ao
outro, por exemplo. Penso que deveria haver uma regulação social, e
não uma regulação estatal, para esses comportamentos.O
que significa isso?
LA
TAILLE Significa
que a própria sociedade deveria ser capaz de administrar essas
atitudes. O professor, por exemplo, tem a possibilidade de dizer:
"Não vamos usar o celular porque isso atrapalha a aula, a não
ser numa emergência". Quando uma lei exterior resolve até os
mínimos conflitos, cria-se uma sociedade infantil. Já a formação
ética, em vez da simples normatização, discute as relações com
outras pessoas, as responsabilidades de cada um e os princípios e
valores que dão sentido à vida.
Como
a escola pode discutir princípios e valores?
LA
TAILLE Antes
de tudo ela tem de eleger seus próprios princípios, coerentes com
a
Constituição brasileira: liberdade, respeito, igualdade,
justiça, dignidade... É fundamental,
ainda, deixar claro
aos estudantes e pais quais são esses princípios, defendendo-os com
unhas e dentes. Por exemplo, se um aluno for humilhado, ferindo o
princípio da dignidade, algumacoisa precisa ser feita. Aí entram
debates, reuniões e assembléias para discutir regras que garantam a
defesa do princípio. "A dimensão moral da criança tem de ser
trabalhada desde a pré-escola. Ética se aprende, não é uma coisa
espontânea"Qual
é a real influência da escola no desenvolvimento moral e ético?
LA
TAILLE Em
primeiro lugar, é preciso lembrar que criar cidadãos éticos é uma
responsabilidade de toda a sociedade e suas instituições. A
família, por exemplo, desempenha uma função muito importante até
o fim da adolescência, enquanto tem algum poder sobre os filhos. A
escola também, na medida em que apresenta experiências de
convívio diferentes das que existem no ambiente familiar - se deixo
meu quarto bagunçado, o problema é meu; se deixo uma classe
bagunçada, o problema não é só meu.Cidadania
e ética podem ser trabalhadas nas séries iniciais?
PERGUNTA
DA LEITORA Solange Gomes, Vilhena, RO
LA
TAILLE Claro.
A dimensão moral da criança tem de ser tratada desde a pré-escola
e se estender por toda a trajetória do aluno. O trabalho pode ser
feito de forma simples ou sofisticada, não importa: o que a escola
não pode é silenciar. Décadas atrás, tiraram a disciplina
Educação Moral e Cívica do currículo. É bom que ela tenha sido
eliminada por causa de sua ligação com a didatura militar, mas o
problema é que não colocaram nada no lugar. Moral, ética e
cidadania se aprendem, não são espontâneas.É
preciso criar aulas específicas para abordar esses temas?
LA
TAILLE Penso
que a transversalidade é melhor que uma aula específica. Se ela for
considerada inviável numa determinada instituição, então que se
proponha uma aula. Mas, se essas discussões não encontrarem eco nas
próprias relações da escola, o trabalho em sala terá pouco
efeito. É preciso que o conteúdo seja inseparável do convívio.
Não adianta falar das belas virtudes da justiça e da generosidade e
ter um ambiente de desrespeito e indiferença. Por outro lado, se os
contatos forem expressão de uma sociedade digna e solidária, faz
sentido discutir justiça e generosidade. Existe uma ponte entre a
vida e a reflexão sobre a vida.Muitos
educadores trabalham regras de convivência com a turma em suas aulas
por meio dos combinados, discutindo normas coletivamente. Qual é sua
opinião sobre essa prática?
LA
TAILLE Para
que um combinado seja efetivamente aceito, é preciso prestar atenção
a três aspectos. Primeiro, é necessário que os princípios
inspiradores norteiem o acordo e sejam explicitamente colocados, não
fiquem apenas implícitos para a turma. Na escola inglesa Summerhill,
por exemplo, um dos princípios fundamentais é o da igualdade. Com
base nele, ficou decidido que nenhuma assembléia poderia resolver
que os meninos menores serviriam aos maiores - algo que, na prática,
poderia acontecer caso os mais velhos tivessem maioria em uma
votação, digamos. Esse, aliás, é o segundo ponto importante:
deve-se evitar ao máximo que os combinados se dêem por votação. É
preferível procurar o consenso, o que dá muito mais trabalho mas é
bem mais rico porque desenvolve a prática de escutar o outro. Se o
grupo segue muito rápido para a votação, elimina-se uma etapa
preciosa que poderia ser dedicada ao diálogo. A votação não é
diálogo, a votação é poder: se eu tenho mais votos que você,
você perde e eu ganho. Em terceiro lugar, o professor não pode
abrir mão de seu papel de autoridade, simplesmente jogando para o
grupo asresponsabilidades pelas sanções que o combinado pode
gerar.Há
algum caso prático que exemplifique essa atuação?
LA
TAILLE Posso
contar um fato real ocorrido numa excelente escola, uma das melhores
que eu conheço. A professora combinou com uma turma de 5 e 6 anos
que, após as brincadeiras, as crianças guardariam os brinquedos.
Todas brincaram, mas duas delas resolveram não guardar o brinquedo.
O que fazer nessa hora? A educadora - que depois se arrependeu
profundamente - propôs que a classe criasse uma lista num pedaço de
papel, escrevendo de um lado aqueles que cumpriram o combinado e do
outro os que não. Resultado imediato: o menino e a menina que haviam
desobedecido ao acordo ficaram desesperados porque se viram
excluídos. Foram para casa e disseram que não queriam mais voltar à
escola de jeito nenhum. O erro da professora foi justamente atribuir
ao grupo a sanção. A tirania do grupo às vezes é pior do que a
tirania de uma só pessoa.Qual
seria a atitude correta da professora nessa situação?
LA
TAILLE Ela
deveria ser a guardiã do combinado, dizendo aos pequenos: "Vocês
vão arrumar os brinquedos, sim. Primeiro, em razão do combinado.
Segundo, porque eu estou mandando". É preciso cuidar para que a
criança não substitua a figura do adulto. Ela precisa dessa
referência de autoridade, de proteção, de confiança. Depois, à
medida que a turma vai tomando consciência e refletindo sobre as
questões morais, pouco a pouco o grupo passa a assumir essa
referência.Então,
pode-se dizer que a questão da indisciplina é um problema
moral?
LA
TAILLE Depende
do que se entende por indisciplina. Eu vejo três definições para o
termo. A primeira tem a ver com a falta de autodisciplina, que é
quando o aluno não consegue organizar a tarefa. A segunda pode ser
associada à desobediência. Acontece quando eu mando o aluno fazer
algo e ele não faz. Eu deixo de ter autoridade porque ele não
seguiu minhas ordens, mas não fui desrespeitado. O estudante pode
desobedecer dizendo algo como "Senhor, me desculpe, mas eu não
vou fazer a lição". É uma questão política, tem a ver com a
legitimidade do posto de direção. A terceira indisciplina, o
desrespeito, essa, sim, é uma questão moral. Se estou lecionando e
o aluno se levanta e vai embora como se eu não existisse, fui
desobedecido como autoridade e desrespeitado como pessoa,
independentemente do fato de eu ser ou não professor. Isso não se
justifica. Um professor com uma aula chata não me autoriza de jeito
nenhum a desrespeitá-lo.Como
co-autor do capítulo dos Temas Transversais dos Parâmetros
Curriculares Nacionais, qual é sua avaliação sobre o impacto
desse documento na formação dos alunos?
LA
TAILLE Em
geral, o que se verifica é que a tranversalidade foi pouquíssimo
implementada. Ela se baseia na idéia de que um determinado tema
social seja trabalhado coordenadamente por professores de várias
disciplinas. Cada um deles contribuiria, dentro de sua área de
atuação, para o ensino desses assuntos. Para que isso seja feito, é
preciso que a equipe se reúna, estabeleça metas e defina o
que cada um vai abordar. Isso pressupõe uma elaboração complexa: o
tempo é essencial para organizar as propostas, colocá-las à prova
e - não vamos esquecer nunca - avaliá-las. Na prática, esbarra- se
em diversos problemas, como o fato de muitos professores trabalharem
em várias escolas e só comparecerem para dar aulas ou, no máximo,
também às reuniões ligadas a sua disciplina.As
escolas não estão preparadas para a transversalidade?
LA
TAILLE Eu
diria que não estão disponíveis para ela, até pelas condições
trabalhistas que acabei de mencionar. Existem belíssimas atividades
com temas transversais, mas quase sempre são levadas por um único
professor. Raramente há o comprometimento institucional necessário
para o projeto se tornar a realidade proposta pelos PCN. E o governo
também precisa se comprometer.De
que forma?
LA
TAILLE Os
políticos prestam um grande desserviço à Educação quando cada
novo governo quer partir quase do zero, como se cada mandato
fosse a Revolução Francesa, que aboliu o calendário anterior
e implantou novos meses, novas datas. Pegue-se o caso dos PCN, feitos
no governo Fernando Henrique e atualmente deixados de lado,
apenas vegetando no site do Ministério da Educação (MEC). E
o programa Parâmetros em Ação, que era essencial para
instrumentalizar a proposta, foi abandonado. Ele seria
essencial para concretizar os PCN, que são, evidentemente, teóricos.
BIBLIOGRAFIA
Labirintos
da Moral,
Mario Sérgio Cortella e Yves de La Taille, 112 págs., Ed. Papirus,
tel. (19) 3272-4500, 26 reais
Limites:
Três Dimensões Educacionais,
Yves de La Taille, 152 págs., Ed. Ática, tel. 0800-115-152, 34,90
reais
Moral
e Ética - Dimensões Intelectuais e Afetivas,
Yves de La Taille, 192 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444, 36
reais
Vergonha,
a Ferida Moral, Yves
de La Taille, 288 págs., Ed. Vozes, tel. (24) 2233-9000, 43,90 reais
Fonte:
http://revistaescola.abril.com.br/formacao/fala-mestre-yves-la-taille-466838.shtml
Grupo: Bruna Franco Longo – 14112080111
Carlos Felipe de Almeida Ferreira – 14112080109
Fernanda Claudia Rezende da Costa - 14112080112
Cerca
de 15,7%
dos mais de 8 mil professores da educação básica da rede pública
na região Centro-Oeste do Brasil apresentam a síndrome de burnout,
o
que leva a um intenso sofrimento
causado por estresse laboral crônico, aponta
a psicóloga
Nádia Maria Beserra Leite.
Os
docentes são mais vulneráveis a esta síndrome porque há um
excesso de exigências impostas a elas, associadas
a condições precárias dos ambientes de educação, bem como à
falta de retribuição afetiva, exposições dos professores a um desgaste
permanente.
Essa
síndrome provoca: Exaustão
emocional, baixa realização profissional e despersonalização.No
primeiro sintoma, 29,8% dos professores pesquisados apresentaram
exaustão emocional em nível considerado crítico. Quanto à baixa
realização profissional, a incidência foi de 31,2%, enquanto 14%
evidenciaram altos níveis de despersonalização.
Essa
síndrome se refere a um tipo de estresse ocupacional e institucional
com predileção para profissionais que mantêm uma relação
constante e direta com outras pessoas, principalmente quando esta
atividade é considerada de ajuda (médicos, enfermeiros,
professores).
As causas mais comuns de estresses nesses professores são: as políticas
inadequadas ou inexistentes da escola para casos de
indisciplina, atitude e comportamento dos
administradores e de outros profissionais da escola, avaliação constante e pressão por parte dos administradores e
supervisores, carga de trabalho excessiva, poucas oportunidades
de crescimento na carreira, baixos salários, que muitas
vezes não compensa o desgaste emocional, baixo status da
profissão de professor; falta de reconhecimento na profissão, alunos barulhentos e agressivos, pais exigentes demais ou desinteressados.
Grupo: Fernanda Claudia Rezende da Costa - 14112080112
Carlos
Felipe de Almeida Ferreira – 14112080109
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